quarta-feira, 13 de junho de 2012

40 anos de uma tragédia, o movimento estudantil e a estação Estudantes de Mogi das Cruzes (SP)


O magro alto, a esquerda, era Aluísio Domingos Bucci, lider
dos estudantes de psicologia
Os estudantes que diariamente viajam de trem entre São Paulo e Mogi das Cruzes, para as aulas nas faculdades locais, por certo desconhecem que os colegas que o antecederam viveram uma manhã de terror no dia 8 de junho de 1972. Completaram-se 40 anos nesta sexta-feira.

Foi às 7h46, dois quilômetros depois da estação de Suzano em direção a Jundiapeba. A composição UPE-2, conhecida como Trem dos Estudantes, tinha deixado a Estação Roosevelt havia quase uma hora, em um dia frio de muita neblina. Estava lotada. Pouco depois de ultrapassar Suzano, uma interrupção na energia elétrica fez com que ela parasse. Pela mesma linha, também em direção a Jundiapeba, circulava a composição Diesel SP-2, para a qual a interrupção da energia elétrica não significava qualquer problema.

Quando o trem diesel passou por Suzano, uma falha de comunicação não o reteve na plataforma. Àquele tempo, sem os controles automáticos de hoje, um trem só poderia deixar uma estação, no caso a de Suzano, se o que o antecedia (o dos Estudantes), tivesse passado pela estação seguinte (Jundiapeba). A falha de comunicação liberou, em Suzano, o Diesel SP-2 que, dois quilômetros à frente, foi bater em cheio na UPE-2. A neblina reduzia a visibilidade e, no meio dos ferros retorcidos, morreram de imediato 17 pessoas, entre as quais 14 estudantes. Também a tripulação do Diesel SP-2, composta por dois maquinistas e um guarda de trem.

Em 20 minutos a notícia da tragédia deixava Mogi das Cruzes de sobressalto. De pronto, todos os hospitais da Cidade entraram em estado de emergência. Os atiradores do Tiro de Guerra passaram a controlar o acesso aos hospitais e a FAB providenciou a vinda de dois helicópteros para movimentar médicos e feridos. Os feridos graves eram 65, dos quais 6 morreriam depois. Até às 13 horas, atendendo apelos feitos pelas rádios locais, mais de 200 pessoas já haviam doado sangue nos hospitais de Mogi e na unidade móvel que a Colsan enviou à Cidade.

A ligação ferroviária entre São Paulo e Mogi ficou bloqueada até o dia seguinte; os trens só podiam trafegar entre São Paulo e Calmon Viana.

Foram os seguintes os estudantes mortos no local do acidente: Medicina – Muhamed Salim Gazal Thural, Aderbal Caputto, José Roberto Pereira da Silva. Biomédicas – Douglas Treyder, Edson Jesus de Abreu. Engenharia – Beethoven Tavares de Lima Jr, Byron Valença Cunha Antoniades, Álvaro Carneiro Viana, Eduardo Gomes Filho, Emílio Leite, Santo Tadeu Meneghetti. Biologia – Maria José de Carvalho, Leonor Francisca Felice Machado e Geraldo Lázaro.

Como em todas as tragédias, o entorno mostra coincidências; algumas tristes, outras felizes. Como a que me contou, há algum tempo, uma querida amiga: Cecília Helena Pacheco Coelho. Àquele tempo, morando com os pais em São Paulo, Cecília viajava diariamente a Mogi para as aulas que ocupavam sua manhã. O resto do dia dedicava às funções de professora em duas escolas da Capital – uma na Vila Alpina da zona Leste, outra em Santo Amaro da zona Sul. Correria que só a força da juventude explica.

Pois Cecília dormira mal naquela noite, num tempo em que curtia muito o curso sobre Fernando Pessoa que fazia por aqui. No café da manhã de 8 de junho de 1972, com a mãe Cecília Helena à frente, do nada ela caiu no choro. Achou que era cansaço e aceitou o conselho da mãe para não vir às aulas. Para não estar no trem da tragédia.

Por essas coincidências que nada explica, eu – que morava em São Paulo – e era repórter do Estadão, dormira em Mogi e, pela manhã, indo ao trabalho em São Paulo, ouvi no rádio a notícia do desastre. Liguei para a Redação, atendeu o então chefe de reportagem Carlos Rangel. Parecia assustado: “Por Deus, estou atrás de você que nem um doido; onde você está?” Respondia apenas que estava a 5 minutos do local do acidente. Material que rendeu 4 páginas na edição do dia seguinte.

Também o médico Geraldo Sica tem lembranças desse dia. Ele cumpria programa de residência médica em traumatologia no Hospital Matarazzo e, de pronto, foi enviado à Santa Casa de Mogi para reforçar a equipe.

Outro é Agostinho Salem Coelho. Foi ele um dos líderes do movimento estudantil que reunia os universitários da Omec e da Braz Cubas em busca de melhorias e mais segurança para o transporte ferroviário entre a Cidade e a Capital.

Ele se lembra da reunião que os estudantes tiveram no auditório do Tiro de Guerra com Jarbas Passarinho, então ministro da Educação. Desse encontro saiu a agenda de um outro, em Brasília, para seguir com as conversas. Segundo Agostinho, Jarbas Passarinho foi muito solícito, os atendeu de pronto e os encaminhou para conversas com dirigentes da Rede Ferroviária Federal (sucessora da Estrada de Ferro Central do Brasil e antecessora da atual EMTU). No Rio, diz Agostinho, “fomos recebidos pelos responsáveis que nos prometeram, para o mais breve possível, um trem especial. Isso aconteceu alguns meses depois. Era um trem com vidros à prova de balas e horários especiais. Houve uma inauguração na estação de Mogi, com grande aparato político e até com tiros nos vidros para provar que, de fato, eram à prova de balas.”

“Conseguimos também – prossegue ele – que a estrada Mogi–Dutra tivesse sua obra apressada e, para quem não sabe, o primeiro nome que ela recebeu, dado pelo então prefeito Waldemar Costa Filho, foi Rodovia dos Estudantes. Cumpre também lembrar que, um ano depois, a Omec passou à universidade (UMC).Tenho certeza que nosso movimento muito contribuiu para isso. Com certeza, este foi o maior movimento estudantil que já ocorreu em nossa Cidade, em plena ditadura militar e com respaldo de algumas autoridades da época. O prefeito Waldemar nos dava total apoio e brigava com o Padre Mello para que a Omec financiasse nossas viagens. Padre Mello relutava, mas não viu alternativa a não ser nos ajudar. Boris Grinberg, diretor da Braz Cubas, colaborava com os diretórios de sua faculdade e permitia que nossas reuniões ocorressem em suas salas de aula.”

O Diário – Chico Ornelas – 11/06/2012

6 comentários:

alexandrov disse...

No Brasil, são necessárias tragédias para que ocorram mudanças! É importante que o brasileiro comece a planejar e a sociedade ajudar! Quando ver algo errado deve denunciar assim começaremos a mudar e a vida melhorar...

SINFERP disse...

É isso mesmo Alexandrov.

Abraço

Wellington Diego disse...

Não conhecia essa história!Muito bom saber disso!Parabéns ao Sindicato,pois além de prestar um serviço de utilidade pública,ao lutar pela melhoria e ampliação do transporte sobre trinhos paulista,presta mais esse serviço de difusão da história.Parabéns mesmo a todos vocês!!

SINFERP disse...

Gratos, Wellington.

Sim, foi mais ou menos assim que nasceu o expresso dos estudantes, bem como a estação estudantes.

antoniocarlos.botelho disse...

Eu estava nesse terrivel acidente e devido a ser o primeiro a entrar no vagão mais acidentado ( o ùltimo da composição) e pela janela, vi o horror que não esperava. Ajudei a retirar vários feridos e infelizmente nada pude fazer com outros.Poderia descrever tudo o que vi, mas não vou relembrar algo que marcou a minha vida, assim como de tantos outros, lamento ter visto amigos mortos, como o Douglas da Biomédicas, que naquele ano tinha começado o seu curso e Fernando que apesar da perda de sua mão esquerda( era canhoto) se formou em engenharia civil comigo.....não desejaria a ninguém, ter visto esse horror, quanto menos ter passado o que passamos.....Desde o acidente, jamais entrei em um trem em minha vida, formamos um grupo e iamos de carro, passando também pelos riscos de acidente, mas ficou em minha mente o horror aos trens da época e o medo me tomou.

SINFERP disse...

Pois foi por conta desse acidente que os sindicatos viraram a mesa e disso resultou a estação Estudantes.