terça-feira, 19 de abril de 2011

Os moradores indesejados do Metrô de São Paulo e seu exterminador

Em 1975, uma pane parou o metrô de São Paulo por horas. Motivo: os milhões de ratos que infestavam os túneis comeram cabos elétricos importantes e o sistema travou.

Naquela época, aos 36 anos, o higienista Angelo Boggio, que trabalhava na então Secretaria Municipal de Higiene e Saúde, foi chamado às pressas para exterminar a praga urbana.

Ali se iniciava a carreira do "Doutor Ratão" (apelido recebido dos colegas) no metrô. Desde então, nenhum rato causou qualquer outra pane.

Hoje o metrô de São Paulo é considerado um dos mais limpos do mundo. "Agora matamos três por mês, no máximo. Quando comecei, eram milhões. Dava para ver a fila de ratos, a perder de vista."

Não é exagero. Os roedores faziam fila debaixo do trilho eletrizado com 750 volts de corrente contínua, com o único propósito de se eriçarem, e dessa forma se livrarem dos carrapatos e piolhos que habitavam seus pelos.

O metrô era muito menor. Tinha cerca de sete quilômetros de extensão. Mas Doutor Ratão era um só. Hoje, conta com uma tropa de 33 homens.

Formado em veterinária e com cursos de bioquímica, química macromolecular, ecotoxicologia médica, entre outros no currículo, ele diz que foi o primeiro a montar um serviço de controle de roedores e vetores do Brasil e criar o primeiro Centro de Controle de Zoonoses.

Mas Boggio nunca foi atacado por um rato? "Só uma vez, em Belo Horizonte. Um rato de mais de um quilo me mordeu aqui (mostra o calombo no dedão direito) e arrancou um pedaço", conta.

"Tomei mais um pouco de conhaque, joguei [o conhaque] em cima, coloquei um esparadrapo e fui dormir", continua, às gargalhadas.

Não se sabe se foi graças ao álcool, mas "Doutor Ratão" não pegou nenhuma doença.

Mesmo assim, não usa equipamentos de proteção --máscaras, botas, luvas etc. --, para trabalhar. Hoje, aos 72 anos, faz um trabalho de vistoria surpresa, duas ou três vezes por semana.

VENENO SECRETO

A equipe do "Doutor Ratão" usa três tipos de veneno, alternados, para evitar que os ratos se acomodem.
Ele não conta a receita dos remédios. Diz apenas que são anticoagulantes que matam os ratos com a perda de sangue, depois de sete dias, a tempo de outros roedores levarem os sachês para a toca e morrerem também. "Eu não escolho os produtos, quem escolhe são os ratos."

Sachês com venenos são trocados a cada 60 dias, a desinsetização é feita a cada 90 dias e o controle do mosquito da dengue, a cada 20.

Toda noite, as cinco equipes se dividem e fazem o trabalho em trechos: dentro dos trens, nas estações, nos trilhos ou na área externa, num raio de 50 metros da estação.

"Se o metrô parar de fazer isso vai ter invasão de rato e barata até dizer chega. É um trabalho sem fim." (Os três roedores cinzentos que cruzaram com a repórter na Praça da Sé devem concordar.).
Folha.com – Cristina Moreno de Castro e Alencar Izidoro - 17/04/2011 

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