segunda-feira, 18 de abril de 2011

Em Guarulhos (SP) a discussão continua: VLT ou VLP?

A visita da missão da Woojin Industrial a Guarulhos, em novembro do ano passado, serviu para que os técnicos da sul-coreana fabricante de trens e desenvolvedora de sistemas ferroviários estudassem uma alternativa de transporte limpa, confortável, com custos viáveis e que atendesse às variáveis de terreno local.

“A Woojin fez, em novembro do ano passado, uma visita técnica a Guarulhos para examinar e estudar as condições do local e o traçado”, diz a companhia em entrevista exclusiva à Folha Metropolitana. “O resultado do estudo foi que o K-AGT (Veículo Leve sobre Pneus) da Woojin seria a opção mais apropriada, pois o trajeto poderá ser construído na via subterrânea ou na via elevada, dependendo das características das áreas.”

O VLP que roda nos subterrâneos e elevados de Busan (2ª maior cidade da Coreia do Sul, com 3,6 milhões de habitantes) acabou vencendo a primeira opção do prefeito – obcecado pelo Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

“O objetivo era ver novas tecnologias voltadas ao VLT”, disse o advogado Antonio Roberto Marchiori, ex-presidente da Associação dos Empresários de Cumbica (Asec), de quem Almeida era convidado na viagem ao Extremo Oriente.

O prefeito e o empresário gostaram do que encontram no país asiático. Segundo Marchiori, o sistema de transporte público em Seul é todo integrado com ônibus, VLTs, VLPs e metrô. “A malha ferroviária em Seul é fantástica”, disse. Segundo ele, o governo prioriza o metrô como transporte público. Para se ter uma ideia, explicou, debaixo do hotel em que ficou hospedado com Almeida havia uma estação.

Pontos mais fortes do sistema são o conforto e a segurança

Um dos pontos que agradaram ao prefeito Sebastião Almeida e Antonio Roberto Marchiori foi o conforto proporcionado pelo veículo. Segundo Marchiori, “existe o VLT francês, japonês, mas o coreano, segundo informações que nós tínhamos, está mais adiantado que o dos outros países”. Atesta: “É um trem rápido, confortável, sem barulho e seguro”, descreveu. Ele informou que o trem possui, entre seus itens de segurança, um trilho lateral, que impede o descarrilamento.

O empresário também teve boa impressão sobre níveis de ruído e vibração, questão resolvida com a adoção de pneus especiais em vez de roda de ferro sobre trilho. “A característica de pneu com baixo ruído permitiu a melhoria no conforto do veículo e forneceu aos passageiros um ambiente interno mais confortável”, explica a empresa.

Segundo a Woojin, “na comparação com o VLT, o K-AGT mostrou melhoria do conforto de cerca de 15% e redução de aproximadamente 10% dos níveis de ruído no interior do trem durante a condução”. Os dados estão baseados na norma UIC, da União Internacional Ferroviária, em francês, assegurou a sul-coreana.

O VLP é um veículo elétrico, completamente automatizado, que dispensa condutor. O controle do veículo é todo feito por computador, que estaciona no local exato, eliminando possíveis demoras no embarque e desembarque de passageiro. Tem ar condicionado e está adequado às normas ISO 14000, que trata de meio ambiente, diz a empresa.

Outra vantagem do VLP está na possibilidade de construir uma faixa exclusiva suspensa sem implicar em grandes problemas de desapropriações, uma vez que a base de sustentação do elevado tem cerca de um metro. Essa versatilidade colocou o empresário entre os que fazem coro a favor do sistema: “É tudo em pré-moldado, que não vai gastar um absurdo com engenharia. É enxuto e se aplica perfeitamente às nossas necessidades”.

Um dos obstáculos ao VLP é o tamanho do investimento. “O custo médio exato é difícil de calcular neste momento, pois o custo é variável, dependendo das despesas na mão de obra e no preço de materiais em Guarulhos. Portanto, podemos contar com o custo médio da construção feita na Coréia, em que a despesa média ficou em cerca de US$ 36 milhões a US$ 45 milhões por quilômetro, baseada na via elevada”, informa a Woojin.

“Trens e metrôs são transportes de massa pesados”

Especialistas dizem que o conceito popular sobre trens não está correto. Parece óbvio, mas trem é um veículo composto por vários carros (vagões) com um carro–motor (sistema de tração) em cada extremidade – já que o trem não faz manobra para retornar como os veículos leves.

Antigamente, esse papel de tracionar os carros cabia à locomotiva, que era o motor da composição. Há trens com mais carros–motor, dependendo da aplicação que se deseja para o sistema, explicam os técnicos.

A partir dessa visão, eles afirmam que o metrô, o VLT e os trens, como os operados pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), são sistemas semelhantes.

O assessor da presidência do Metropolitano de São Paulo, Marcos Kassab, diz que não existe um modelo padrão de trem. O que é conceito em São Paulo pode não ser em outras cidades e no resto do mundo, explica. “Isso tudo é imagem subjetiva do que a gente faz do sistema”, diz.

Ele explica que a chave de capacidade do sistema de transporte está na segregação, ou seja, no isolamento que a linha ferroviária tem em relação ao ambiente externo: cruzamentos, passagens de pedestres, ciclistas, animais e demais aspectos que possam alterar a velocidade da composição entre as estações. Quanto maior a segregação da ferrovia, tanto maior a capacidade do sistema. A velocidade, por sua vez, depende de motorização (aceleração) e quantidade de paradas nas estações. Sobre conforto, ele explica que alguns trens da CPTM são até mais confortáveis e silenciosos que algumas linhas de metrô. Segundo ele, itens de conforto – como ar-condicionado, por exemplo – podem ser adicionados a qualquer veículo.

Rogério Centofanti, consultor do Sindicato dos Ferroviários da Sorocabana (um dos sindicatos que representam os ferroviários da CPTM), acrescenta: “Trens e metrôs são sistemas de transporte de massa, pesado”.

A seu ver, o sistema só deve ser instalado em regiões densamente povoadas, com prédios e grande fluxo de pessoas que vão percorrer distâncias mais longas. Eles servem para captar os passageiros que migram de outros sistemas menores, como ônibus e vans, diz.

“Se um VLT for colocado num túnel terá desempenho excepcional”

“Bonde moderno.” Essa é a definição dada ao sistema VLT, que não deixa de ser um trem. Marcos Kassab explica que esses modelos podem ser mais ou menos velozes, transportar mais ou menos pessoas, de acordo com o planejamento que se faça para a demanda existente.

Normalmente, os VLTs são implantados em vias públicas e convivem com pedestres, ciclistas, carros, ônibus. “Os VLTs são harmônicos e não exigem grandes transtornos (para implantação)”, defende Rogério Centofanti. Segundo ele, o modelo “suave”, que seria “ideal para cobrir São Paulo por dentro”, é mais lento. “Ele não foi planejado pelo conceito de alta velocidade. Anda em baixa, mas em velocidade constante”, afirma. Andar mais lento, contudo, não significa que vá chegar depois. “Vamos imaginar que ande a 20 quilômetros em velocidade constante. É uma velocidade monumental em São Paulo”, diz. Sua base é a velocidade média nos corredores paulistanos, que no horário de pico, em muitos casos, não chega a 15 ou 17 quilômetros por hora, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo (CET).

Kassab concorda em parte com o sindicalista. A seu ver, tudo depende da segregação e da demanda que se pretende atender. Não é aconselhável aos VLTs que trafegam nas ruas urbanas em intervalos inferiores a quatro minutos por questões de segurança, diz. Ressalva: “Mas se você pegar um VLT que anda na rua e colocar num túnel ele vai ter desempenho excepcional, porque o entorno é diferente”, diz o executivo do Metrô.

Centofanti, um apaixonado por trem que mantém o blog ‘São Paulo Trem Jeito’ (http://saopaulotremjeito. blogspot.com/), no qual explica os vários meios de transporte baseados em trilhos, tem uma visão romântica sobre o modelo.

“Os VLTs são harmônicos, uma beleza, que compõem muito bem com a paisagem da cidade.”

Já os VLPs são ‘ônibus guiados’, como define Kassab. “Segundo ele, existe alguns modelos de VLT com pneu, aí é um trem de pneu. Não é a mesma coisa”, explica. Normalmente, os VLP são sistemas semelhantes ao Expresso Tiradentes (antigo furafila), ou seja, precisam rodar em faixas exclusivas para atingir o objetivo, que é de melhorar a velocidade de transporte.

Folha Metropolitana – Ricardo Filho - 17 de abril de 2011

Apenas uma pequena correção, na esperança que o jornalista Ricardo Filho não se importe: o blog São Paulo Trem Jeito é mantido pelo Sindicato dos Ferroviários da Sorocabana, e não pelo consultor do sindicato, embora sua presença seja uma constante. Ao jornalista, nossos agradecimentos pela referência ao blog.

Abaixo, para conhecimento visual de nossos muitos visitantes de Guarulhos, o vídeo institucional da K-AGT, empresa coreana. Um VLP (Veículo Leve sobre Pneus), que faz uso de via segregada suspensa (como os monotrilhos), motores eletricamente alimentados por canaletas laterais, e controlado por um CCO (Centro de Controle Operacional).



Nenhum comentário: