quarta-feira, 20 de abril de 2011

E o monstrorista de Porto Alegre (RS) sai na tela do Fastástico

“Eu nunca tive a intenção de provocar a morte dessas pessoas. Eu nem conhecia eles, não teria nenhuma razão para matá-los”, afirmou. “Eu só pensei que, se eu parasse, eu seria linchado. Minha única alternativa era sair dali”, disse.

Orientado pelos dois advogados, que acompanharam a gravação (para o Fantástico), Neis manteve sempre a mesma versão. “Naquele momento, naquela situação, eu estava sendo agredido, eu entrei em pânico”, afirmou.

O homem conseguiu na Justiça, há dez dias, o direito de responder ao processo em liberdade. “Naquele dia, eu estava indo levar meu filho na casa da mãe dele. Ele tinha passado a noite toda comigo, e era sexta-feira. Ele ia passar o fim de semana com ela”, disse.

No caminho, Neis deu de frente com os ciclistas do Movimento Massa Crítica. São homens e mulheres que se reúnem uma vez por mês para defender o uso da bicicleta como meio de transporte.

Naquela noite de 25 de fevereiro, o grupo, com cerca de 150 ciclistas, percorreu um trajeto pelo Centro de Porto Alegre. Eram 19h. Segundo o motorista, o grupo impediu sua passagem.

“Fecharam o trânsito e tomaram conta da rua ali. Eu parei o carro, alguns deles se atiraram para cima do capô, outros deram alguns socos. Eu fiquei bastante nervoso, e meu filho também. Então, eu procurei apaziguar. Baixei o vidro, disse para eles que não precisavam fazer daquela maneira, porque havia lugar para todo mundo na via”, afirma Neis.

Um quarteirão dali, Ricardo afirma que os ciclistas abriram passagem. A situação, que parecia resolvida, se complicou. “Quando eu ultrapassei, eu vi que eles se enfureceram. Então, nesse momento, eles realmente começaram a agredir o carro. Quebraram o espelho, deram várias batidas mais fortes. Aí, então, meu guri estava em pânico, eu fiquei em pânico também e procurei fugir”, disse.

Às 19h10, Neis saiu em disparada. Imagens mostram o momento em que ele acelera e joga o carro em cima dos jovens. Sobre pegar outra rua para evitar o atropelamento, ele afirma: “Se soubesse que iria haver uma agressão pior, poderia ter feito isso antes.”

Fugiu sem prestar socorro

Depois de atropelar os ciclistas, Neis fugiu sem prestar socorro às vítimas. Ele foi preso e denunciado por 17 tentativas de homiídio e chegou a ficar quase um mês na cadeia.
“Eu agi de forma instintiva, a minha intenção era sair dali. Eu estava em pânico, eu estava com medo. Se eu pudesse prever o que aconteceria, se eu pudesse prever a agressão, mas eu teria que ter uma bola de cristal”, disse Neis.

"Eu agi por impulso. Não agi por vingança, de maneira nenhuma. Agi por instinto de fuga. Você há de convir comigo que você não pode ter uma manifestação, uma passeata, no meio do trânsito”, justifica Neis.

Os ciclistas Marcos Rodrigues, Suryan Cury e Ricardo Ambus estavam no grupo que pedalava naquela noite. Eles contestam a versão do atropelador e dizem que não foram eles que começaram a confusão.

“Naquele evento, não tinha nenhuma pessoa tomando atitudes agressivas. As pessoas ficaram até em volta do carro para tentar parar ele, porque ele estava, de fato, acelerando, dando aquelas pequenas aceleradas para passar”, conta Cury.

“Ninguém quebrou o carro dele, ninguém! Bateram na janela: ‘Calma aí, vamos conversar’, e ele não se mostrou nem um pouco aberto ao diálogo”, diz Rodrigues, uma das vítimas. “Ele é um exemplo de muitos motoristas que estão por aí descontrolados”, aponta Ambus, outra vítima do atropelamento.

O ciclista Marcos Rodrigues aparece nas imagens no momento em que o motorista avança sobre o grupo. “Eu comecei a ouvir um barulho de batidas, e foi aí que eu olhei para trás e vi gente voando por cima do carro. Aí eu pensei: ‘Bom, eu tenho que sair daqui’. Só que eu acordei no chão”, disse.

“Graças a Deus que foram lesões leves e danos materiais. Graças a Deus. Não estou nem preocupado com meu carro. Graças a Deus que não aconteceu nada pior”, disse o motorista.

Histórico de infrações

Segundo o Ministério Público, Ricardo Neis tem um histórico de infrações no trânsito. São cinco multas. Entre elas, por dirigir na calçada e ultrapassar na contramão. Na vida pessoal, Ricardo foi acusado de tentar agredir a ex-namorada com uma machadinha e um facão, dentro do carro, em junho do ano passado.

O promotor Eugênio Paes Amorim acredita que um homem com o perfil de Neis não deveria estar em liberdade. “Ele sabe que está com um carro altamente potente, com motor potente, atuando contra ciclistas, veículos mais fracos e mais expostos. Ele tinha plena ciência de que, com aquela ação, ele podia matar as pessoas”, afirmou.
Remorso

“O senhor sente algum remorso?”, pergunta o repórter a Ricardo Neis. “Claro que eu pensei muito nisso. Claro que isso que você está colocando, eu me pergunto muito: ‘Será que eu avaliei certo aquele momento?’. Eu realmente penso isso”, disse o motorista.

G1 - 17/04/2011

A história do monstrorista de Porto alegre, funcionário do Banco Central, não pode ser tratada como um simples acidente de trânsito. Talvez escape do processo criminal. Certamente não escapará impune das dezenas de processos cíveis se cada um dos ciclistas resolver contra ele mover ação por danos materiais e morais. Isso, entretanto, é com os ciclistas.

Basta, entretanto, acompanhar as palavras dessa aberração, para notar que estamos diante de um dono da rua, intolerante com o uso da via pública para uma manifestação pacífica e ordeira de ciclistas, que tentavam domar feras exatamente como ele, isto é, os que fazem de seus automóveis verdadeiras armas, e do espaço público um cenário para atender a bel prazer suas vontades mesquinhas.

Nas mãos da Justiça e dos membros do Movimento Massa Crítica, de Porto Alegre, a responsabilidade de não deixar que esse animal saia impune dessa história, em virtude do reflexo simbólico de sua atitude absolutamente anti-democrática.

Basta ler o que ele declarou, para perceber o que motivou o animal – demonstrou, literalmente, quem é que manda na rua. Querendo ou não, consciente ou não, o imbecil cometeu um crime de motivação política, pois 
calou, pela violência, uma manifestação pública.


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