quinta-feira, 21 de abril de 2011

Criador da Embraer fala do transporte coletivo versus transporte individual

Ozires Silva, engenheiro aeronáutico, mestre em Ciências Aeronáuticas pelo California Institute of Technology (EUA). Liderou a equipe que criou a Embraer e presidiu a Petrobras e Varig. Atualmente, entre outros cargos, é diretor-presidente da OSEC – UNISA. Foi Ministro da Infra-estrutura no governo Fernando Collor de Melo.

A tecnologia do transporte público coletivo é um dos temas centrais a ser discutido nesse trabalho de revisão do PITU (*). Hoje, o nosso sistema de transporte é baseado e dependente do petróleo e da energia elétrica. Sabemos que se investe pouco em pesquisa no país e talvez pudéssemos estar mais adiantados nessa questão. O gás, que se mostrava uma alternativa interessante, agora parece estar com sérias dificuldades. Como o sr. avalia essas questões?

Ozires Silva – Essa questão com a Bolívia já era prevista. Certa vez fui procurado na Petrobrás para fazer um acordo de gás com a Bolívia e não o fiz. Isso foi há 20 anos. Tem-se de partir de certas premissas quando se faz um estudo dessa natureza. Em primeiro lugar, nenhum país do mundo gosta de ser dependente politicamente de compra de combustível externo. Todos os países buscam a auto-suficiência, é uma tendência normal. Por outro lado, há sempre o risco político: a Bolívia agora é um dos elementos, até outro dia foi o Iraque. Hoje, em qualquer planejamento estratégico dos principais povos do mundo, a energia aparece em primeiro lugar. Não só porque é importante, mas porque estamos cada vez mais dependentes dela.

Energia que vamos buscar cada vez mais longe e cada vez mais cara, no caso de São Paulo...

Silva – Mas existem alguns cenários interessantes para se pensar. Num cenário para 2025, a energia elétrica estará predominando. Ela já é o sistema mais flexível que temos: está na geladeira, no ar-condicionado, no telefone, no rádio, no carro e vai acabar dominando também o setor de transporte. A propulsão mecânica será substituída não só na área individual como também na coletiva. O sistema que hoje utilizamos não resiste à menor análise: o motor do automóvel hoje utilizado, se chegar a 25% de rendimento é muito e, no novo cenário, a ordem é de 50%, 60% ou 70% de rendimento. Portanto, é inexorável a entrada da energia elétrica. No Brasil já estão sendo fabricados ônibus híbridos, propelidos a energia elétrica, mas eles ainda terão um motor a gasolina, alimentando a bateria. Essa ainda é uma solução pobre. O combustível do futuro utiliza o hidrogênio.

O hidrogênio é apontado hoje como a grande solução...

Silva – Mas vai ser um problema, porque falta investimento em pesquisa. O Brasil poderia dar um salto e chegar à frente se fossem feitas mais pesquisas. O Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia conseguiu colocar no orçamento R$ 8 milhões para o desenvolvimento desse projeto enquanto os Estados Unidos colocaram U$ 20 bilhões – isso sem falar em outros países que estão investindo nesse tipo de pesquisa. Há um outro aspecto muito importante. Do ponto de vista do transporte metropolitano temos de enfrentar o cenário que vem pela frente e que já é o cenário de hoje: o sujeito que está andando de ônibus tem o automóvel na cabeça.

O transporte coletivo perde muito em comparação com o transporte individual?

Silva – É inevitável. Eu cito sempre os exemplos das cidades de Tóquio e de Paris, que têm uma estação do metrô a cada 400 metros e estão sempre congestionadas.

Há quem afirme que o automóvel é um produto que tinha tudo para não dar certo, pois seu custo social fica escondido. O valor que aparece seria apenas a ponta do iceberg, considerando o custo de circulação, da construção e manutenção das vias que, ao serem inauguradas, já estão aquém das expectativas. Ou seja, o automóvel tinha tudo para dar errado, mas soube se viabilizar e se vender muito bem. Por que isso?

Silva – Eu acho que essa é a tendência. Tudo o que é de uso individual tem uma enorme paciência conosco. Você coloca o automóvel no estacionamento e ele fica lá esperando até que você volte; o telefone fica esperando sua chamada; o seu computador está ali, pacientemente, esperando ser usado. Então, as pessoas que acham que a solução coletiva é a solução do futuro estão completamente enganadas. Estamos vendo que em tudo a solução individual sempre ganha da coletiva.

Mas numa cidade com 18 milhões de habitantes não tem muito jeito, certo?

Silva – Concordo, mas neste caso são necessárias medidas que levem ao uso do transporte coletivo. Se a opção for deixada em aberto, a população prefere o transporte individual. Participei de uma palestra onde se dizia que o transporte público coletivo é a solução, mas é o transporte individual que as pessoas querem. Evidentemente que a sociedade, numa cidade com alguns milhões de habitantes, pode constranger as pessoas a usarem o transporte coletivo.

E o transporte individual não está acessível para todos.

Silva – Mas pode ter certeza de que a mais humilde das pessoas, se puder escolher, será pelo transporte individual. Há cerca de 15 anos, quando estava no Ministério, fui convidado para ir à Tailândia e vi que Bangkok era um horror quanto ao transporte coletivo. O ministro dos Transportes, que me recebeu, afirmou que a freeway era o caminho mais rápido para sair de um congestionamento e ir para outro. Perguntei sobre a estratégia do governo em face desse problema e ele respondeu que não conseguiriam se livrar do transporte individual, pois este está na cabeça das pessoas. E completou dizendo que iriam fazer tudo o que fosse possível para assegurar a mobilidade nas cidades, o que exigia transporte coletivo, mas que, evidentemente, o transporte individual continuaria sendo fundamental.

Gostaria que o sr., aproveitando sua experiência, se detivesse um pouco mais na questão das novas alternativas de fontes de energia.

Silva – Não creio que o petróleo vá acabar, sinceramente não creio. As reservas mundiais são substancialmente superiores às que utilizamos até agora. Mas desde o tempo em que estive na Presidência na Petrobras, eu dizia que o petróleo é um produto extremamente nobre para ser queimado de modo tão primário nas ruas. Ele é uma das melhores matérias-primas que temos no mundo, mas sua queima cria um problema ambiental muito complicado. A equação é a seguinte: ou nós acabamos com o petróleo, ou ele acaba conosco. Por outro lado, as gerações futuras não vão nos perdoar por termos gasto tanto petróleo! Pode ser que, em alguns milhares de anos, tenhamos exaurido esse petróleo e nossos descendentes se lamentem de como foi possível desperdiçá-lo dessa maneira!

O hidrogênio é uma alternativa?

Silva – O hidrogênio é um recurso interessante, inclusive por ser abundante na natureza. Tudo tem hidrogênio. Evidentemente que não é todo hidrogênio que pode ser utilizado – matéria orgânica, hidrogênio e carbono, basicamente. O hidrogênio é fantástico, pois produz eletricidade através de um processo físico, e não por combustão. Podemos ter no futuro veículos propelidos a eletricidade oriunda diretamente do hidrogênio, pois até a água tem hidrogênio. Podemos imaginar que o hidrogênio seja a melhor oportunidade que temos para a substituição do petróleo. E o Brasil tem oportunidades enormes nesse aspecto, mas como ele não está isolado na atmosfera, vamos ter de escolher o tipo de matéria-prima que vai nos fornecer hidrogênio.

Surgirão outros tipos de motores e de combustíveis?

Silva – Agora se fala muito do biodiesel. No entanto, dentro de 15 ou 20 anos, o motor diesel não estará mais em uso ou, se estiver, será por uma outra razão qualquer, porque no mundo de hoje um produto sempre acaba sendo substituído por vários outros produtos. A mesma coisa vai acontecer com o petróleo. Surgirão vários substitutos, mas o mais intenso e que possui maiores vantagens é o hidrogênio. O hidrogênio apresenta enormes vantagens, pois ele pode ser extraído de alguns tipos de produtos como o caso do metanol, do etanol e até do biodiesel.

Qual tem sido a tendência de desenvolvimento dessas pesquisas?

Silva – No Brasil, como já disse, uma empresa produtora de veículos de transporte está fazendo um ônibus híbrido e, no local do motor de combustão interna que fornece energia elétrica, há um lugar certo para se colocar um conjunto de produção de eletricidade a partir do hidrogênio. E este ano a Toyota lançou carros experimentais, inclusive uma linha de carros comerciais, com motor movido por eletricidade a partir do hidrogênio. Essas alternativas estão em teste também em outros países. Então, eu diria que a propulsão elétrica vai entrar nessa infra-estrutura e vai melhorar bastante o motor elétrico, que é de excelente porte e muito econômico. No início de sua vida útil ele já alcança 50% do rendimento, ou seja, o dobro do rendimento dos carros atuais e, com os aperfeiçoamentos que virão, os motores elétricos modernos chegarão a cerca de 90% de eficiência. Num cenário para 2025, o carro elétrico vai predominar, pelas seguintes razões: ele é muito vantajoso, por ser absolutamente silencioso, não tem caixa de mudança e é extremamente leve. Muito mais eficiente. Por outro lado, não acredito nessas tecnologias sobre as quais algumas pessoas têm falado como a levitação magnética ou levitação pneumática. Na realidade, os processos aerodinâmicos são pouco eficientes.

E o transporte coletivo também será beneficiado com essas novas tecnologias?

Silva – Este vai ser o caminho, sobretudo para o transporte coletivo, em que vai sobrar espaço para colocar o equipamento necessário porque a eletricidade apresenta muita dificuldade para ser armazenada. Numa bateria, ela é armazenada sob a forma de energia química, que foi a única forma encontrada, mas essa solução é muito ruim. Então a única coisa que a bateria vai precisar, no novo automóvel, é fazer um backup, mais ou menos como é hoje, em que temos uma pequena bateria para dar a partida para o sistema continuar funcionando. Mas eu creio fortemente que esse futuro já está sendo desenhado hoje e tem gente que chega a falar em carros nucleares, mas isso não encontra suporte nas pesquisas.

E como o senhor avalia a utilização da biomassa?

Silva – A biomassa como origem do hidrogênio, sem dúvida, é importante. Mas queimar a biomassa na combustão interna como estamos fazendo com o álcool é uma tolice. Mas essa foi a forma encontrada, já que o álcool também tem muitos problemas, pois ele bombeia o chamado efeito estufa pela combustão do CO2 e ainda contribui para a poluição do ar. É verdade que menos do que o combustível fóssil, pois pertence ao ecossistema e, ademais, tem a grande vantagem de estar dentro de nossa atmosfera, que já está acostumada a fazer a reciclagem disto. De modo que o álcool tem vantagens, mesmo sendo usado em um motor de combustão interna, mas se pudéssemos utilizá-lo em algo mais nobre seria o ideal. É bem verdade que a equação química vai depender da pureza desse álcool, mas o resultado da produção do hidrogênio é água. Ou seja, o efluente desse futuro carro é água. Vejo este cenário, tenho confiança nele e acho que deveríamos investir pesadamente nisso.

E o que está atrapalhando?

Silva – Falta de recursos. O presidente Bush colocou U$ 20 bilhões no programa norte-americano e está acelerando o processo. Nós temos uma vantagem comparativa que é o álcool. Mas temos de pensar na problemática biométrica.

O sr. atribui isso a uma falta de visão estratégica, de médio e longo prazos, que permita adaptações?

Silva – Para mim a equação é clara. A solução individual tende a se sobrepor à solução coletiva. Se olharmos tudo o que está à nossa volta, isso aconteceu em outras esferas, por exemplo, com o telefone: quem o inventou também inventou o posto telefônico. A partir do instante em que inventaram o telefone individual, seu uso só aumentou. Veja, quando eu era ministro das Comunicações, havia 2 milhões de telefones no Brasil inteiro. Hoje, pouco mais de 10 anos depois, são 90 milhões. Sempre o denominador comum é o uso individual. É claro que, enquanto sociedade, podemos constranger o indivíduo ao uso do transporte coletivo – seja o metrô ou o ônibus elétrico, que é silencioso – mas pode ter certeza de que o cidadão que está dentro olha pela janela e começa a pensar que um dia ele vai ter seu carro.

Há quem diga que um pouco de congestionamento é até bom, porque é pedagógico, nessa linha do constrangimento, para fazer as pessoas optarem pelo uso do transporte coletivo.

Silva – Em minha colocação a variável mais importante do mundo moderno é o tempo. Então, se quisermos os cidadãos gerando riquezas, não podemos colocar constrangimentos à sua ação. Não podemos deixar essas pessoas que utilizam o carro, um setor que gera cerca de 15.000 empregos, paradas num congestionamento ou obrigá-las a pegar um ônibus.

Por exemplo, quando optamos pelo metrô, sabemos que vamos gastar a metade do tempo que gastaríamos se fôssemos de carro, e ainda evitaremos as dificuldade de estacionamento, sobretudo o preço alto. Mesmo assim, em algumas situações, somos levados a optar pelo uso do automóvel.

Silva – Mas temos de pensar também na sucessão das atividades, pois depois de fazer o que precisava naquele local, como a pessoa se desloca para outro lugar? Vamos supor que haja uma rede tipo Orca no metrô e o cidadão possa ir para a cidade inteira. Então, talvez essa venha a ser uma alternativa para a integração no metrô. Entretanto, a variável tempo tem de ser colocada, sobretudo no futuro. Veja o caso dos aviões e os ganhos de velocidade que conseguimos. Até hoje se fala em ultrapassar a barreira do som. Poderíamos ultrapassar, mas não é econômico. Tecnologicamente não tem nenhum problema, o problema é de custo.

Por tudo o que foi dito, o sr. é frontalmente contra qualquer alternativa de pedágio urbano?

Silva – Eu chamo isso de constrangimentos que se impõem à sociedade por uma razão qualquer. Havendo uma razão forte para isso, faz-se, mas cientes de que estamos subindo a montanha de costas.

Na verdade estamos atacando muito mal o efeito e não a causa, certo?

Silva – Exatamente. O processo coletivo pode determinar essa solução. Sei que isso é necessário, mas não é lógico, vai haver resistência e o problema não será resolvido. O rodízio tem um impacto apenas no primeiro momento pois, no segundo, o sujeito que precisa do tempo – que é a variável mais importante do mundo moderno – vai procurar a opção que lhe parece mais eficaz: compra um segundo carro e sai às ruas da mesma maneira.

Há quem diga que o pedágio só oferece uma solução ao usuário se lhe for oferecida uma outra solução não pedagiada; ou seja, se ele está com pressa, paga para usar a via mais expressa.

Silva – Com certeza ele vai pagar o pedágio, mas vai reclamar. Trata-se de uma solução coletiva obrigando e criando um constrangimento qualquer que vai ter um custo. Tem de ser oferecida uma alternativa ao cidadão. Vejo o futuro com extremo otimismo, mas quando me defronto com especialistas defendendo o transporte coletivo como a solução definitiva, penso que é algo absolutamente inviável. Veja o avião, que é tão caro! Nos Estados Unidos eles conseguiram um desenvolvimento que até agora não conseguimos atingir: uma frota com mais de 200 mil aviões privados.

Aqui a classe de renda mais alta está resolvendo sua situação com o helicóptero, cuja frota já é a segunda maior do mundo...

Silva – O avião oferece economia de tempo. Há outra variável, que no caso do avião se aplica: as linhas aéreas do Brasil não chegam senão a 130 cidades e temos 5.500 municípios! Nos Estados Unidos, que têm aeroportos em toda parte, os aviões privados vão a 2.500 municípios. De modo que tudo o que se mede hoje, como resultado na sociedade, é em tempo. É a variável do presente e continuará a sê-la no futuro.

Qual é frota de aviões particulares no Brasil?

Silva – É de 12.000 aviões. Na verdade, o que ocorre é que temos uma legislação extremamente restritiva ao uso do avião. Nos Estados Unidos, para voar abaixo de 2.000 pés (600 metros) de altura em relação ao terreno, não há necessidade de autorização. Mas lá é uma bagunça! Aqui é que é organizado! Um analista americano assim definiu nosso país: a diferença entre os Estados Unidos e o Brasil é que lá há poucas leis, bastante flexíveis, cuja aplicação é absolutamente rígida. E no Brasil há uma infinidade de leis, extremamente rígidas, mas cuja aplicação é totalmente flexível. Temos leis que engessam a todos nós. Neste e em outros casos, devemos sempre lembrar que eficácia e tempo são fundamentais.

(*) PITU é a sigla de Plano Integrado de Transportes Urbanos para 2020, da Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Governo de Estado de São Paulo.

fonte - Secretaria dos Transportes Metropolitanos de São Paulo - Visões da Metrópole -Transporte coletivo x individual


Comentário do sindicato.

No que diz respeito ao transporte de pessoas, certamente não compartilhamos da visão individualista do Sr. Ozires Silva, e por uma razão lógica: o trem é o único meio de transporte que não pode ser individualizado. Uma pessoa pode comprar um carro ou até mesmo um ônibus para uso individual, e rodar pelas ruas, avenidas e estradas. Pode comprar um avião ou helicóptero e sair voando. Pode comprar um navio e singrar os rios e mares. Pode comprar um trem? Pode, mas para com ele circular terá que construir uma ferrovia inteira. Nessa medida, trem de passageiros é necessariamente um meio de transporte coletivo e, como o uso da via é monopolista e sua construção é paga com dinheiro público, também ele precisa ser público, e não privado. Quanto a questão energética, as posições do Sr. Ozires Silva são respeitáveis.

Ozires Silva sempre considerou inaceitável a Embraer ficar de fora da concorrência do programa de aquisição dos caças de combate da Força Aérea Brasileira (FAB). “Não posso aceitar que alguém diga que a Embraer não é capaz de fazer um avião como esse. Esta é uma posição restritiva a uma companhia nacional, líder mundial no seu segmento e que já fabricou mais de 8 mil aviões, que operam hoje em 80 países do mundo.”

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