domingo, 17 de abril de 2011

China vai exigir que seus TAVs circulem em menor velocidade

A China vai começar a exigir que sua crescente frota de trens de alta velocidade rode a velocidades mais baixas, disse a autoridade governamental das ferrovias. É o mais novo indício de problemas no projeto de transportes mais celebrado do país.

A decisão foi comunicada pelo ministro das Ferrovias, Sheng Guangzu, em entrevista publicada na quarta-feira no Diário do Povo, o jornal oficial do Partido Comunista chinês. Segundo Sheng, a medida derrubará o preço das passagens e aumentará a eficiência energética dos trens de alta velocidade.

Sheng, que assumiu o Ministério das Ferrovias em fevereiro, após seu antecessor renunciar em meio a suspeitas de corrupção, disse que os trens na China precisam servir a todos os estratos da sociedade.

A China é vasta e há diferenças regionais no desenvolvimento econômico e social; logo, as normas para a construção de ferrovias não podem ser uniformes, disse Sheng na entrevista. O ministro não disse quanto o valor das passagens poderia cair.

Vasto e caro, o projeto ferroviário da China foi envolto em denúncias de corrupção nos últimos meses. E sua dívida preocupa cada vez mais. Uma campanha anticorrupção no Ministério das Ferrovias foi o que provocou a renúncia do ministro anterior, Liu Zhijun, no início de fevereiro. Ele ainda não foi indiciado no caso.

A agência de notícias estatal Xinhua informou no mês passado que cerca de US$ 28,5 milhões haviam sido desviados do projeto da linha de alta velocidade ligando Pequim a Xangai, festejado pelas autoridades como um dos grandes feitos da China na área de transportes. Nas últimas semanas, Zhang Shuguang, engenheiro-chefe do ministério, também virou alvo de inquérito.

A malha de alta velocidade da China cresceu em extensão e velocidade nos últimos anos. Num relatório do ano passado, o Banco Mundial calculou que até 2012 a China terá pelo menos 42 trens com velocidade máxima superior de 250 km por hora. Terá, ainda, uma malha ferroviária de alta velocidade maior do que a do resto do mundo somada. O governo chinês investiu pesado nos projetos: a linha Pequim-Xangai custará, sozinha, cerca de US$ 33 bilhões.

Especialistas questionam a segurança dos trens de alta velocidade na China. Um executivo de uma fabricante estrangeira de trens de alta velocidade disse que a operação a velocidades superiores a 330 km por hora acarreta problemas de segurança e custos mais elevados. Numa velocidade dessas as rodas derrapam tanto que é preciso ter motores maiores e muito mais eletricidade para operar o trem. Além disso, o desgaste dos trilhos é tal que os custos de inspeção, manutenção e reparo sobem consideravelmente. É por isso que na Europa, no Japão e na Coreia do Sul nenhuma companhia ferroviária opera trens a mais de 320 km por hora, disse o executivo, acrescentando que acima de 330 a 350 km por hora é mais seguro e possivelmente mais barato operar trens de levitação magnética.

Na entrevista, Sheng disse que trens de alta velocidade passarão a rodar a, no máximo, 300 quilômetros por hora a partir de 1º de julho (até então, chegavam a cerca de 350 quilômetros por hora). Muitos dos trens interurbanos do país vão rodar a velocidades entre 200 e 250 quilômetros por hora.

Segundo Sheng, uma razão para a mudança é melhorar a eficiência energética de trens de alta velocidade. Um trem rodando a 350 quilômetros por hora requer o dobro de energia de um à velocidade de 200 quilômetros por hora, disse.

Para Sun Zhang, especialista do Instituto de Ferrovias e Transporte Urbano Ferroviário da Universidade de Tongji, o anúncio indica que o governo começa a ouvir reivindicações de usuários do sistema. Segundo ele, reportagens recentes na imprensa sobre o alto preço do transporte ferroviário de alta velocidade teriam obrigado o ministério a rever a questão. Agora, com velocidades e preços distintos, o consumidor vai ter mais opção, disse.

Uma passagem de trem de alta velocidade pode custar até o dobro da passagem mais cara em trens convencionais. Entre Wuhan e Cantão, duas cidades no sudeste do país, por exemplo, uma passagem num tem-bala custa 469 iuans (cerca de US$ 70), caro demais para muitos chineses. O resultado é que certos trens circulam quase vazios, dizem especialistas.

Na entrevista com o ministro, o Diário do Povo não tocou na questão da corrupção. Mês passado, a agência de notícias Xinhua informou que a dívida das empresas ferroviárias do país chegava a cerca de US$ 271 bilhões. Sheng já declarara a um veículo de comunicação estatal que não considera esse endividamento um problema.

A entrevista no Diário do Povo não informa como a festejada linha Pequim-Xangai, em fase de construção e com inauguração prevista para junho, será afetada pelas medidas. Os trens dessa linha são projetados para circular a cerca de 380 quilômetros por hora, velocidade maior do que a de qualquer outra linha na China hoje.
The Wall Street Journal - 15/04/2011

O que faz o trem-bala custar muito caro são as exigências da via (construção e manutenção), para que ele possa desenvolver alta velocidade. Para melhor entendimento do leitor menos familiarizado, basta pensar nas condições necessárias de uma estrada, para que uma Ferrari possa desenvolver todo seu potencial de velocidade. Trem bala pede vias retas e, se possível, planas. Chineses têm uma indústria de alta tecnologia apenas para construir vias para Tavs.

Trens regionais modernos têm excelente desempenho nos Alpes, por exemplo, o que não quer dizer que aceitem vias mal feitas, embora enfrentem curvas e aclives consideráveis, sem perda de desempenho. Se os chineses estão reduzindo velocidade para reduzir custo, é sinal que o trem-bala não está sendo competitivo no quesito custo, mais do que na questão da segurança. Na mesma analogia com a Ferrari, quanto maior a velocidade, maior será o consumo de combustível. Os chineses estão – em confirmando a notícia – trazendo seus Tavs para velocidades de trens regionais. Se isso se confirmar, estamos caminhando na contramão da tendência.

Quanto a adoção de trens de média velocidade no Brasil é necessário o leitor saber que a construção de vias, para eles, é muito mais barata do que a necessária ao trem-bala. SE o governo federal aparecer com a conversa que vai adotar trem de média velocidade (no lugar do TAV) para manter o orçamento de 33 bilhões, é fundamental que todos saibam que esse valor é extremamente elevado.

Outra informação importante: a Alstom é UMA dentre várias empresas que constroem trens de média velocidade. 

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